Branco.
Muito Branco.
Havia
um pouco do chão também, mas Eleonor não tinha muita certeza. Quando ela
começou a andar, não sentia esse chão. Não caminhava, quase se tele-transportava.
Um segundo atrás estava se recordando daquela noite no Clube de Dança, agora
começara a lembrar alguns momentos do seu dia. Quando se encontrou no espelho,
lembrou-se de Alice, e após isso alguns galhos começaram a surgir e plantas
também. O Gato de Cheshire apareceu e ela se lembrou do Sr. Pulgas. O inocente
gato surgiu segurando um machado e ao seu fundo um exército se movimentava,
passando entre Eleonor.
Novamente
o silêncio, e aí um trem! Outro carro, um avião. De repente estava dirigindo
novamente e escutando a milhões de buzinas no transito da Marginal. Esperou e
olhou o rádio. Quando apertou play já se deitava ao lado de
seu namorado com The Carpenters ao fundo. A mesma cena antes de adormecer.
Olhou de uma forma estranha o entorno. Não sentia a presença física do seu
namorado e nem das coisas no quarto. O espaço só existia conforme olhava reto.
Atrás ou nos lados talvez somente alguma luz indicando algo, mas nada existia,
pois nada é real. Real? Eleonor abriu a porta e caiu.
Caiu,
rodopiou e deslizou no ar. Em seguida estava em um bloco de carnaval, encostada
atrás de um banheiro químico. Sentiu que já esteve ali. Olhou ao redor, mesma
sensação do quarto. Ao virar, esbarrou em seu futuro namorado. Os dois pediram
desculpas e a multidão o arrastou. Quando disse “hey”, já estava abrindo a
porta para seus amigos. Era 07 de Junho, aniversário de sua mãe. Os convidados entravam, a cumprimentavam e perguntavam: Onde coloco o presente? Eleonor indicou com a
cabeça quando subitamente já estava olhando a lápide de seu filho. 2 segundos e
seu coração congelou e seus olhos lacrimejaram. Novamente na festa da mãe,
indicando o local dos presentes, escutou gritos. Saiu apressada da porta e
encontrou todos em volta da piscina aterrorizados. Seu filho se afogara.
Eleonor
acordou subitamente. Muito confusa e ofegante. Desceu as escadas e foi beber um
copo com água. Derrubou um pouco na pia e quando o líquido passou pelo ralo, ouvisse um som de um pingo em um mar. Eleonor olhou o ralo e estouro! Sua casa estava inundada em segundos.
Quando conseguiu abrir a porta, a água saiu e em
sua casa só tinha grama. As próprias paredes e escadas sumiram. Por pouco não
fora atingida por um bumerangue. Olhou em volta e estava no parque. Seu filho
surgiu dizendo que estava com fome. Milhares de dúvidas surgiram na cabeça de
Eleonor. Observou uma família embaixo de uma árvore fazendo um piquenique.
Percebeu que era ela a criança de roxo, com apenas 7 anos. Quando foi
atravessar, para se aproximar, um caminhão em alta velocidade buzinou e Eleonor
só teve tempo de olhar a lataria vermelha e o forte farol se aproximando.
Ao acordar, novamente assustada, o quarto tinha a decoração de sua infância, com
bonecas jogadas pelo chão. Estava em seu antigo endereço, 10 anos atrás. Quando acordou viu seu acidente na TV.
Novamente
se levantou abruptamente. Procurava no redor do quarto escuro algo. Não sabia o
que. Remexeu nos fios de cabelo e pensou em beber água. Ou talvez não. Eleonor percebeu que tudo fora um sonho, talvez um
sonho dentro de um sonho. Consternada, tentou acordar seu marido. Quando tocou
o braço, sentiu que estava duro e frio. Removeu
violentamente o cobertor e encontrou um boneco de testes ao seu lado. De
repente uma luz muito.forte refletiu em sua pele, tão forte que Eleonor não enxergava nada a sua frente. Uma porta se abriu e um moço
saltou atirando dardos de sono. Bravejou depois no telefone: peguei um dos
grandes!
Eleonor
sentiu um tipo de queimação, que foi descendo pelo seu corpo até suas partes
intimas. Ali se concentrou, elevando o prazer de Eleonor. Enquanto se contorcia, imagens do rosto de seu marido piscavam em sua mente. Seu tio a tocando no parque quando tinha 7 anos, duramente ressurgiram. Ao mesmo tempo
em que sentia prazer, Eleonor tentava fugir dele. No momento do orgasmo, enfim
abriu os olhos e nem notou que estava em uma cama descendo pelos céus a uma
velocidade astronômica. O movimento das nuvens ainda era em câmera lenta, e os
sons da natureza pareciam tão próximos.
Chegou
ao chão levantando poeira. Olhou diretamente ao Sol, como se pudesse encara-lo.
Por um instante pensou que poderia seduzi-lo. As forças dos raios foram
aumentando exponencialmente até o momento que cobriram totalmente a visão de
Eleonor. Tudo ao seu redor pegava fogo, menos seu corpo e sua cama. Enquanto
ainda olhava em direção ao Sol, começou a sentir que se desprendia de seu corpo,
como se realmente sua alma estive deixando seu físico. Começou a correr por
entre o fogo, tentando alcançar uma porta, enquanto sentia que sua alma a
deixava. Abriu a porta e acordou.
Eleonor estava sentada em sua velha poltrona.
Velha sensação estranha. Antes de adormecer estava lendo um livro. O fitou e
leu a primeira frase do topo da página: “Dentro de cada um de nós há um outro que
não conhecemos. Ele fala conosco através dos sonhos". Confusa, com um ar
de vertigem, pensou: será que a realidade também não seria uma fantasia ou
ilusão? Olhou a TV que estava muda, era alguma notícia sobre alguém que foi
atropelada por um caminhão. Logo sentiu um toque em seu peito. Dessa vez,
Eleonor concluiu que tudo estava bem. Resolveu ver a beleza daquele dia. Olhou
pela janela: o mundo estava pegando fogo. Novamente voltou a dormir. Novamente
acordou.
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