terça-feira, 10 de junho de 2014

Psico-Online



Branco. Muito Branco.
Havia um pouco do chão também, mas Eleonor não tinha muita certeza. Quando ela começou a andar, não sentia esse chão. Não caminhava, quase se tele-transportava. Um segundo atrás estava se recordando daquela noite no Clube de Dança, agora começara a lembrar alguns momentos do seu dia. Quando se encontrou no espelho, lembrou-se de Alice, e após isso alguns galhos começaram a surgir e plantas também. O Gato de Cheshire apareceu e ela se lembrou do Sr. Pulgas. O inocente gato surgiu segurando um machado e ao seu fundo um exército se movimentava, passando entre Eleonor.
Novamente o silêncio, e aí um trem! Outro carro, um avião. De repente estava dirigindo novamente e escutando a milhões de buzinas no transito da Marginal. Esperou e olhou o rádio. Quando apertou play já se deitava ao lado de seu namorado com The Carpenters ao fundo. A mesma cena antes de adormecer. Olhou de uma forma estranha o entorno. Não sentia a presença física do seu namorado e nem das coisas no quarto. O espaço só existia conforme olhava reto. Atrás ou nos lados talvez somente alguma luz indicando algo, mas nada existia, pois nada é real. Real? Eleonor abriu a porta e caiu.
Caiu, rodopiou e deslizou no ar. Em seguida estava em um bloco de carnaval, encostada atrás de um banheiro químico. Sentiu que já esteve ali. Olhou ao redor, mesma sensação do quarto. Ao virar, esbarrou em seu futuro namorado. Os dois pediram desculpas e a multidão o arrastou. Quando disse “hey”, já estava abrindo a porta para seus amigos. Era 07 de Junho, aniversário de sua mãe. Os convidados entravam, a cumprimentavam e perguntavam: Onde coloco o presente? Eleonor indicou com a cabeça quando subitamente já estava olhando a lápide de seu filho. 2 segundos e seu coração congelou e seus olhos lacrimejaram. Novamente na festa da mãe, indicando o local dos presentes, escutou gritos. Saiu apressada da porta e encontrou todos em volta da piscina aterrorizados. Seu filho se afogara.
Eleonor acordou subitamente. Muito confusa e ofegante. Desceu as escadas e foi beber um copo com água. Derrubou um pouco na pia e quando o líquido passou pelo ralo, ouvisse um som de um pingo em um mar. Eleonor olhou o ralo e estouro! Sua casa estava  inundada em segundos.
 Quando conseguiu abrir a porta, a água saiu e em sua casa só tinha grama. As próprias paredes e escadas sumiram. Por pouco não fora atingida por um bumerangue. Olhou em volta e estava no parque. Seu filho surgiu dizendo que estava com fome. Milhares de dúvidas surgiram na cabeça de Eleonor. Observou uma família embaixo de uma árvore fazendo um piquenique. Percebeu que era ela a criança de roxo, com apenas 7 anos. Quando foi atravessar, para se aproximar, um caminhão em alta velocidade buzinou e Eleonor só teve tempo de olhar a lataria vermelha e o forte farol se aproximando.
Ao acordar, novamente assustada, o quarto tinha a decoração de sua infância, com bonecas jogadas pelo chão. Estava em seu antigo endereço, 10 anos atrás.  Quando acordou viu seu acidente na TV.
Novamente se levantou abruptamente. Procurava no redor do quarto escuro algo. Não sabia o que. Remexeu nos fios de cabelo e pensou em beber água. Ou talvez não. Eleonor percebeu que tudo fora um sonho, talvez um sonho dentro de um sonho. Consternada, tentou acordar seu marido. Quando tocou o braço, sentiu que estava duro e frio. Removeu violentamente o cobertor e encontrou um boneco de testes ao seu lado. De repente uma luz muito.forte refletiu em sua pele, tão forte que Eleonor não enxergava nada a sua frente. Uma porta se abriu e um moço saltou atirando dardos de sono. Bravejou depois no telefone: peguei um dos grandes!
Eleonor sentiu um tipo de queimação, que foi descendo pelo seu corpo até suas partes intimas. Ali se concentrou, elevando o prazer de Eleonor. Enquanto se contorcia, imagens do rosto de seu marido piscavam em sua mente.  Seu tio a tocando no parque quando tinha 7 anos, duramente ressurgiram. Ao mesmo tempo em que sentia prazer, Eleonor tentava fugir dele. No momento do orgasmo, enfim abriu os olhos e nem notou que estava em uma cama descendo pelos céus a uma velocidade astronômica. O movimento das nuvens ainda era em câmera lenta, e os sons da natureza pareciam tão próximos.
Chegou ao chão levantando poeira. Olhou diretamente ao Sol, como se pudesse encara-lo. Por um instante pensou que poderia seduzi-lo. As forças dos raios foram aumentando exponencialmente até o momento que cobriram totalmente a visão de Eleonor. Tudo ao seu redor pegava fogo, menos seu corpo e sua cama. Enquanto ainda olhava em direção ao Sol, começou a sentir que se desprendia de seu corpo, como se realmente sua alma estive deixando seu físico. Começou a correr por entre o fogo, tentando alcançar uma porta, enquanto sentia que sua alma a deixava. Abriu a porta e acordou.
Eleonor estava sentada em sua velha poltrona. Velha sensação estranha. Antes de adormecer estava lendo um livro. O fitou e leu a primeira frase do topo da página: “Dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco através dos sonhos". Confusa, com um ar de vertigem, pensou: será que a realidade também não seria uma fantasia ou ilusão? Olhou a TV que estava muda, era alguma notícia sobre alguém que foi atropelada por um caminhão. Logo sentiu um toque em seu peito. Dessa vez, Eleonor concluiu que tudo estava bem. Resolveu ver a beleza daquele dia. Olhou pela janela: o mundo estava pegando fogo. Novamente voltou a dormir. Novamente acordou.

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