que somos tão sérios
que negamos nosso corpo
que pintamos as unhas
as peles.
que mofamos
que marcamos o tempo em nossos pés, mãos e pescoço
você, nós
que gosta de tragédia
e esmaga o menor na sarjeta
-há tragédia maior?
você, nós
que só tem tempo de dormir no ônibus
que esquece o arroz no fogo
que tem medo de olhar nos olhos
sim, voce!
que come hipocrisia
e agora ta com pressa.
que se mata um pouco por dia
atrás do que já tem.
sim, nós!
você que é pobre, mas vota na direita.
e você que é rico, critica a "ditadura cubana" mas quer uma no brasil
você
que não sabe como escutar musica
que não conhece nada difícil
que não termina nada
que não chora.
você
que não vê poesia em uma tirinha
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
expectativa/realidade
lembro dos sábados cinzentos
lembro dos acidentes
lembro dos desenhos
lembro dos presidentes
lembro dos faróis demarcando seus lugares na avenida
da barriga de meu pai ser meu travesseiro
das bolas de futebol me driblando
do sol afunilado na nossa cabeça
lembro da saia de minha mãe ser uma grande cortina;
cortina de embaraço
onde é permitido se esconder em todas as situações
seja
de suas amigas solteironas; que tem memória curta quanto a tamanho de crianças
ou da canalhice dos meninos mais velhos.
não havia tristeza para mim pelo mundo ser tão grande.
***
"são tempos difíceis para os sonhadores", amélie uma vez me disse
mas acho que não, nós temos muito tempo
e é fácil, pois comemos utopia a toda hora
ou cheiramos carreteis de fé.
só tragando um belo coração é que se compreende que a vida vai demorar para se desenrolar, contemplando uma felicidade real-
e assim se espera que dure para sempre, sem queimar o dedo no final.
não são tempos difíceis, amélie
-difícil é eclipse solar misto ou encontrar um chester vivo!
difícil é acreditar em nada.
acredite em alguma coisa e verás como é linda e maluca a esperança!
não há ideia que não sobreviva no tempo
os homens morrem, os dias também.
mas uma ideia não.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
quero terminar o dia em silêncio.
contemplando aquilo que ele nos conta; tudo que pode revelar.
a taciturnidade cortante que nasce quando estamos a sós com nossa fantasia.
um silêncio que abrace a voz dos deuses
que te faz chorar na quentura da noite escura.
na mudez que dorme no peito
ou no dessas pessoas na sala de jantar
- ocupadas em nascer e morrer -
quero reservar um silêncio baderneiro
- com megafone, poesia e tudo.
---
as vezes, eu não sei das afinidades.
observo as ruas e penso que elas estão pensando.
talvez a caloria de seus rostos não namore o mormaço de suas mentes.
quero chorar, mas meu pranto não tem voz contra o silêncio.
contemplando aquilo que ele nos conta; tudo que pode revelar.
a taciturnidade cortante que nasce quando estamos a sós com nossa fantasia.
um silêncio que abrace a voz dos deuses
que te faz chorar na quentura da noite escura.
na mudez que dorme no peito
ou no dessas pessoas na sala de jantar
- ocupadas em nascer e morrer -
quero reservar um silêncio baderneiro
- com megafone, poesia e tudo.
---
as vezes, eu não sei das afinidades.
observo as ruas e penso que elas estão pensando.
talvez a caloria de seus rostos não namore o mormaço de suas mentes.
quero chorar, mas meu pranto não tem voz contra o silêncio.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
você tremia, como uma flor ao vento
me olhava por baixo, me desconstruía
pela sua mão, parecia que faziam 40º
porém sua boca congelou o espaço-tempo-físico-celestial-bláblá
antes nos lábios miúdos montados no carmim
me via clamando por você
agora nos dentes que se batem em descompasso
sei no que poderia ter feito.
me olhava por baixo, me desconstruía
pela sua mão, parecia que faziam 40º
porém sua boca congelou o espaço-tempo-físico-celestial-bláblá
antes nos lábios miúdos montados no carmim
me via clamando por você
agora nos dentes que se batem em descompasso
sei no que poderia ter feito.
estive olhando sua foto do perfil
e me peguei pensando no porquê de você não me responder mais;
se está gostando de alguém,
ou se ainda se sente sozinha.
você deixou uma marca em carne viva.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
na minha mente correm dois rios
na minha mente correm dois rios.
um que floresceu recentemente
e corre impunemente.
e outro - persistente no tempo - que ainda se preserva em meio ao entupimento de seu fluxo.
Ao meu barco, ronda uma névoa de indecisão.
pela dúvida de qual rio suicida tomar.
um que floresceu recentemente
e corre impunemente.
e outro - persistente no tempo - que ainda se preserva em meio ao entupimento de seu fluxo.
Ao meu barco, ronda uma névoa de indecisão.
pela dúvida de qual rio suicida tomar.
domingo, 23 de novembro de 2014
um grande marginal roubou a minha poesia!
um homem de bem roubou o grande marginal!
papeis roubaram o homem de bem!
e eu? eu sou só mais um, eu sou ninguém.
eu sou raso
nada largo
modestamente oco.
você? tuas mãos estão pincelando os homens
o teu coração come mundos!
teus olhos fizeram os prédios acordarem!
***
quero este marginal imediamente preso!
que a lei caia sobre ele e afunde seu âmago
chega dessa beleza que está florescendo em seu peito, chega!
***
a lei não suporta os homens.
ele não atinge a todos
não tocou o marginal
a lei, não está em todas os meios
e nem fins
não a lei para o que esse marginal faz
seu próximo delito será sabe-se deus lá quando!
anda por aí roubando mentes confusas
e corações vazios
um grande marginal roubou a minha poesia.
domingo, 16 de novembro de 2014
Pornopopéia
quero quebrar tuas paredes
engolir a tua respiração
matar minha sede no teu suor
ouvir todos os tons que você tem
e te ver posta a navegar, na imensidão de um mar de leite.
dentro das saias afiadas
no olhares tempestuosos das mal-ditas mulheres
existe sua chama estrondosa.
das mil faces
das mil mortes
seus grandes e pequenos lábios 👄
que nos beija
que nos fala,
destilam os segredos mais sobreis de todos nós
dos quais me enlambuzo de beber
mas na manha seguinte, uma criança torna a acordar
e no meio da cama, uma fossa se abre
enquanto o magnetismo dos olhares antes turvos,
se desmancha.
nas vitrines, nas mesas, nas mãos, nas bolsas,
existem vários sonhos.
dos meus, somente a janela vê.
para eles, uma razão infinita.
mas com prazo de validade
e mentiras, lavadas com verdade
para servirem com o que desejam.
assim também como meus sonhos
que duram apenas uma noite.
engolir a tua respiração
matar minha sede no teu suor
ouvir todos os tons que você tem
e te ver posta a navegar, na imensidão de um mar de leite.
dentro das saias afiadas
no olhares tempestuosos das mal-ditas mulheres
existe sua chama estrondosa.
das mil faces
das mil mortes
seus grandes e pequenos lábios 👄
que nos beija
que nos fala,
destilam os segredos mais sobreis de todos nós
dos quais me enlambuzo de beber
mas na manha seguinte, uma criança torna a acordar
e no meio da cama, uma fossa se abre
enquanto o magnetismo dos olhares antes turvos,
se desmancha.
nas vitrines, nas mesas, nas mãos, nas bolsas,
existem vários sonhos.
dos meus, somente a janela vê.
para eles, uma razão infinita.
mas com prazo de validade
e mentiras, lavadas com verdade
para servirem com o que desejam.
assim também como meus sonhos
que duram apenas uma noite.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Meu amigo
Meu amigo, eu vou te falar
Como eu não sei te amar!
Tua grandeza envergonha até o mais ridículo tirano
e tua humildade quebra a magia até do mais pobre pastor
Mesmo no porte que os deuses não esperavam nada
Tu soube se portar!
No traquejo das mais encardidas sensações de todos nós, infelizes -
Meu amigo, eu vou te falar
Como eu não sei te amar!
Tua grandeza envergonha até o mais ridículo tirano
e tua humildade quebra a magia até do mais pobre pastor
Mesmo no porte que os deuses não esperavam nada
Tu soube se portar!
No traquejo das mais encardidas sensações de todos nós, infelizes -
- Um Lucas, do nome que significa luminoso -
soube como torna-las luz, exibindo nossa melancolia
nossa razão
nossa cabeça dura
e acima de tudo, nossa platonice tão sentida
Apóstolo Paulo tinha Lucas como discípulo,
e com ele andava a pregar.
Nós como grandes céticos, até de nós mesmos,
seguimos a nadar em nossa poesia.
Pingando lágrimas em palavras
e ondas em versos.
Meu amigo, você conseguiu congelar memórias em estrofes
e assim esculpe cada letra com verdadeiro apreço.
Agora entendi o porquê da homenagem - quase premoníaca - de sua mãe:
- São Lucas é padroeiro dos artistas.
Terças de cinema sem enxergar direito a tela
Soltando pipa ou indo ver os porcos no sítio
Exagerando a dose
Confiando cada palavra de angústia
Tecendo no horizonte
Alguma fé
Na chuva
Na ternura
Na luta.
Como eu não sei te amar!
Para o fiel camarada Lucas Faustino
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Isabel nunca viu o mar
Isabel
nunca viu o mar. Nunca se libertou nas águas salgadas, nunca pisou
na areia quente. Entretanto, Isabel morava em uma cidade litorânea.
Em meio a isso, como pode ela nunca ter ido de encontro ao mar?
Isabel também não sabia, talvez dependesse dela, ou talvez não,
quem sabe? Ninguém sabe.
Isabel
trabalhava. O dia inteiro ela estava em total concentração, nos
movimentos ímpares para não errar. Dentro do hostil galpão, ela beirava a fraca luz que entrava pela janeleta e se imaginava em
delírios no mar. Na contemplação dos dias, no milésimo de folga,
ela ouvia dos grandes quem era o mar. Vultoso, sedutor, eloquente –
este era o mar de Isabel.
O
caminho para o mar era aberto para os grandes. Belas avenidas os
vomitavam direto lá. A areia se transformava em seus quintais e tudo
era permitido. Um dia, um dos de Isabel encontrou esse caminho. Por
indicação baixa de alguém, encontrou a oportunidade e a seguiu.
Já
Isabel, pobre de si, nem sonhava com isso. Não existiram
oportunidades. O mar era distante, mas ela sabia que existia! Um
outro dia, um dos de Isabel discutiu com um grande. O pobre condenado
conseguiu o que queria com muito esmo: ver o mar também. Entendia
isso como seu direito. E lá se foi ele de sunga vermelha e boia no
braço dançar no mar.
Isabel
não foi, não sabia disso. Desenhava em seus sonhos uma miragem do
que seria o mar. Alguns dos seus o encontravam, e nunca voltaram.
Mudaram de roupas, costumes e gostos depois de descobrirem o mar.
Isabel não, sempre continuou a mesma, dona de si, possuidora de
nada.
Isabel
nos seus últimos dias, se controlava para não chorar. Nunca
descobrira o mar, nunca. Se virando de lado, se apertando contra o
frio ela não parou de imaginar. A imagem do mar que a acompanhou
durante a vida foi se apagando, apagando até o último fio de azul.
Isabel fechou os olhos. Ela nunca viveu o seu mar.
sábado, 1 de novembro de 2014
da primeira vez que te vi, sabia que iria te perder.
é como a melancolia de deitar na cama e remoer
remoer todos os significados
as palavras não ditas
as chances de se mostrar por dentro
uma esfinge que não se vê.
por que é tão difícil escrever sobre você? mas tão fácil te colocar aqui
numa cama vazia
num sonho cheio
nos gestos e rostos de todo mundo
talvez eu não saiba sofrer.
talvez eu seja mais um pseudo-qualquer coisa
mas eu não sei ser você
não sei te carregar
os amores passados foram
os novos desejos queimaram
e você, onde está?
você está em lugar nenhum
eu perco a escrita
minha mão se atropela
e eu delírio de sono
porém persisto
tentando escrever você
ainda sim, a fraqueza incomoda tanto
não deixa a escrita continuar
ela grita que não posso fazer isso
que está ruim, que não sei mais o que
dizem que escrever poesia é ver o mundo com lentes bêbadas
- ninguém está pensando nisso quando atravessa a rua
pois senão, a tua poesia me prendeu na cama
nadei na pureza
vivo todos os l'amour de forma intensa, de explodir por dentro
não tenho mais onde rasgar palavras
é culpa minha se eu não sei o que quero
-Desculpa se te fiz chorar.
é como a melancolia de deitar na cama e remoer
remoer todos os significados
as palavras não ditas
as chances de se mostrar por dentro
uma esfinge que não se vê.
por que é tão difícil escrever sobre você? mas tão fácil te colocar aqui
numa cama vazia
num sonho cheio
nos gestos e rostos de todo mundo
talvez eu não saiba sofrer.
talvez eu seja mais um pseudo-qualquer coisa
mas eu não sei ser você
não sei te carregar
os amores passados foram
os novos desejos queimaram
e você, onde está?
você está em lugar nenhum
eu perco a escrita
minha mão se atropela
e eu delírio de sono
porém persisto
tentando escrever você
ainda sim, a fraqueza incomoda tanto
não deixa a escrita continuar
ela grita que não posso fazer isso
que está ruim, que não sei mais o que
dizem que escrever poesia é ver o mundo com lentes bêbadas
- ninguém está pensando nisso quando atravessa a rua
pois senão, a tua poesia me prendeu na cama
nadei na pureza
vivo todos os l'amour de forma intensa, de explodir por dentro
não tenho mais onde rasgar palavras
é culpa minha se eu não sei o que quero
-Desculpa se te fiz chorar.
p/ Geovanna
deitado no lado da cama onde sempre fico enquanto converso com você
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
No dia 31 de Outubro e sempre
tocando a cidade, meus olhos ardem
carros deslizam no asfalto molhado.
em todo olhar, um adeus.
as portas e janelas não protegem nada que a memória não possa abrir.
tarde rosada
as cigarras cantam os amores, e morrem
os gafanhotos declamam embrigadados durante o verão inteiro,
vadios sem ideologia
o Vento convidou um Amor para entrar
se instalaram, ficaram por um tempo
mas nem bem fecharam a porta para ficar para sempre,
já se retiraram
e não levaram ninguém
-Sinto saudades desse amor
conto meus segredos para a chuva
enquanto vejo o topo dos prédios
espio a cidade
lá tudo se reinventa, se pinta
reluz, é vida
mas Tu espia os homens,
estão todos tristes
carros deslizam no asfalto molhado.
em todo olhar, um adeus.
as portas e janelas não protegem nada que a memória não possa abrir.
tarde rosada
as cigarras cantam os amores, e morrem
os gafanhotos declamam embrigadados durante o verão inteiro,
vadios sem ideologia
o Vento convidou um Amor para entrar
se instalaram, ficaram por um tempo
mas nem bem fecharam a porta para ficar para sempre,
já se retiraram
e não levaram ninguém
-Sinto saudades desse amor
conto meus segredos para a chuva
enquanto vejo o topo dos prédios
espio a cidade
lá tudo se reinventa, se pinta
reluz, é vida
mas Tu espia os homens,
estão todos tristes
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Folha grudada no poste
Se alguém ver Dalva, por favor me avise!
Avisei aos cães da delegacia, e aos heróis do botequim
Fiz correr o lápis nos obituários e afinei os olhos nas praças
Perdi o tom.
Procurei nas estrelas, Dalva não estava lá
Em uma canção de jazz, também sumiu
E no nosso domingo, só a vi em nossas cartas
Talvez até dentro de mim Dalva esteja fugindo
Fugindo de que, meu Deus?
Me ajudem! Se alguém a vir, me avise!
Estou chorando.
As roupas de Dalva morreram
Estou virando migalhas
Digam a ela que estou bem. Que estou mudando para uma garrafa.
Lá os mares são loiros e suas ressacas afogam a lembrança em Dalva.
-não foi Dalva quem sumiu, foi eu.
Avisei aos cães da delegacia, e aos heróis do botequim
Fiz correr o lápis nos obituários e afinei os olhos nas praças
Perdi o tom.
Procurei nas estrelas, Dalva não estava lá
Em uma canção de jazz, também sumiu
E no nosso domingo, só a vi em nossas cartas
Talvez até dentro de mim Dalva esteja fugindo
Fugindo de que, meu Deus?
Me ajudem! Se alguém a vir, me avise!
Estou chorando.
As roupas de Dalva morreram
Estou virando migalhas
Digam a ela que estou bem. Que estou mudando para uma garrafa.
Lá os mares são loiros e suas ressacas afogam a lembrança em Dalva.
-não foi Dalva quem sumiu, foi eu.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
é/foi
está no copo vazio
no espaço da cama
na janela, no frio
no espaço da cama
na janela, no frio
a ilusão de você voltar pra casa
num verso sem fim
no café que não esfria
nos olhares de uma fotografia
em uma parte de mim
a ilusão de você voltar pra casa
está na boca do motorista
nas paredes, as calçadas
nas capas de revista
no nosso cheiro na almofada
a ilusão de você voltar pra casa
da para ouvir no clamor das rosas
ver nas cores do céu
nas tardes mais ociosas
e nos soluços escondidos de um bordel
a ilusão de você voltar pra casa
as sombras hão de fugir
e todos hão de consentir
que há uma ideia sem sentido, dolorida
tão fugaz, tão perdida
a ilusão de você voltar pra casa.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
as vezes, não sabemos o que cada um vive e sente
Um dia eu estava no terminal de ônibus
Atrasando um pouco de propósito para não chegar no horário.
Nas raras vezes em que dá tempo de chegar cedo, eu prefiro manter as tradições
e não chegar no horário
Espiando as pessoas nas múltiplas filas de dar nó
Tão fadadas, esperando ir para casa e reencontrar a dignidade
Eu, enquanto encostado no poste, em sublime observação; uma senhora vem contra mim
Dou um risinho murcho, perspicaz ao olhar o botton com a bandeira americana invertida no peito dela
e penso:
- Velhinha subversiva hein!
E ela me encara, me contorna e vai mexer no lixo atrás de mim
Sinto como um golpe seu embaraço pelo meu olhar indiscreto, fazendo ela abaixar a cabeça para mim
escondendo o olhar
Viro meu rosto também como se esse ato somente afastasse nossa vergonha
Ela passa e sai, volto a olhar para ela
Na sutileza dos segundos praticamente pré-determinados da vida,
ela se vira e me encara
Engulo, me recortando por dentro
Um mísero espaço de tempo em que senti a violência para com os outros
de nossas ações
Eu poderia me sentir inocente, mas inocentes são aqueles que não sentem empatia.
-Naquele dia eu morri.
Atrasando um pouco de propósito para não chegar no horário.
Nas raras vezes em que dá tempo de chegar cedo, eu prefiro manter as tradições
e não chegar no horário
Espiando as pessoas nas múltiplas filas de dar nó
Tão fadadas, esperando ir para casa e reencontrar a dignidade
Eu, enquanto encostado no poste, em sublime observação; uma senhora vem contra mim
Dou um risinho murcho, perspicaz ao olhar o botton com a bandeira americana invertida no peito dela
e penso:
- Velhinha subversiva hein!
E ela me encara, me contorna e vai mexer no lixo atrás de mim
Sinto como um golpe seu embaraço pelo meu olhar indiscreto, fazendo ela abaixar a cabeça para mim
escondendo o olhar
Viro meu rosto também como se esse ato somente afastasse nossa vergonha
Ela passa e sai, volto a olhar para ela
Na sutileza dos segundos praticamente pré-determinados da vida,
ela se vira e me encara
Engulo, me recortando por dentro
Um mísero espaço de tempo em que senti a violência para com os outros
de nossas ações
Eu poderia me sentir inocente, mas inocentes são aqueles que não sentem empatia.
-Naquele dia eu morri.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
tarde da noite
eu preciso me escrever
preciso escrever sobre a lua na morte da noite
preciso escrever sobre o silêncio da avenida
e das multidões
preciso escrever sobre o nosso atraso já agendado
preciso escrever sobre as palmeiras falsas
e o medo de agradecer
queria poder traduzir o olhar esquecido nas janelas dos ônibus,
e os temores daqueles que sonham
-Queria um milésimo da inspiração humana
queria poder escrever
sobre a perda do inicio de tudo,
e de nós mesmos
queria poder entoar o canto das tristezas
e preencher o copo meio cheio,
meio vazio.
preciso escrever sobre a lua na morte da noite
preciso escrever sobre o silêncio da avenida
e das multidões
preciso escrever sobre o nosso atraso já agendado
preciso escrever sobre as palmeiras falsas
e o medo de agradecer
queria poder traduzir o olhar esquecido nas janelas dos ônibus,
e os temores daqueles que sonham
-Queria um milésimo da inspiração humana
queria poder escrever
sobre a perda do inicio de tudo,
e de nós mesmos
queria poder entoar o canto das tristezas
e preencher o copo meio cheio,
meio vazio.
vozfobia
pelo teor machista da sociedade
ele ficou bêbado e começou
a não gostar de sua voz
sabe, ele queria ter uma voz que
dilacerasse as palavras, fazendo
com cada vez que uma palavra velha,
parecesse nova
queria ter uma voz que não batesse à porta
incomodasse
uma voz que tocasse até os ossos
e esquentasse o coração
uma voz assassina
uma voz com todas as palavras do mundo
uma voz sem catracas
sem todas as fortalezas
não queria que sua voz fosse todas
mas que se enturmasse na canção de todas
..."calando todas as vozes"...
queria que sua voz replicasse todos os gritos
e abrisse assim, as fechaduras
que estão presas nas vozes de todos sem voz
sábado, 11 de outubro de 2014
eu falhei
falhei com as pessoas que eu amava
falhei com as pessoas que pensava que amava
falhei com todos os meus projetos
falhei com todas as minhas andanças
falhei em tentar organizar uma rotina
falhei em tentar ter uma rotina
falhei em entender os egos
falhei em não derrota-los
falhei nas possibilidades
falhei nas incertezas
falhei em entender o que é justo
falhei em reservar atenção ao próximo
falhei em abrir passagens para todos
falhei em mentir por nada
falhei em fechar os olhos
falhei em não saber quando abri-los
eu falhei.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Conversas com a chuva
o que vem de ti, chuva?
por que precisa tanto desses ventos para rufar tua raiva?
como pode fazer queimar tanto suas gotas em nós?
e se nos raios se pode iluminar a mais obscura caverna, por que se teme tanto?
e nessa sua voz, o que vem de ti, chuva, senão uma profusão de vida? na noite a nossa morada. o fundo para descobrir nossos monstros.
está tão viva quanto nosso ego, quanto nosso medo
por que precisa tanto desses ventos para rufar tua raiva?
Meu vento vêm para confundir os homens com suas grandezas.
como pode fazer queimar tanto suas gotas em nós?
É para se misturarem ao peso de suas lágrimas.
e se nos raios se pode iluminar a mais obscura caverna, por que se teme tanto?
Do meu raio, somente os sonhos se percebe na caverna. A sua realidade ainda é profunda, turva.
e nessa sua voz, o que vem de ti, chuva, senão uma profusão de vida? na noite a nossa morada. o fundo para descobrir nossos monstros.
A cantiga de dormir predileta, abafando a loucura dos homens.
está tão viva quanto nosso ego, quanto nosso medo
e tão quente quanta nossa tristeza...
Somente a chuva acompanha a todos.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
a cidade é mais triste sem os meninos
a cidade sem os meninos é mais triste
não há mais paz nas ruas sem eles
nem há freada quando a bola pula na frente do carro.
meu Pai sempre dizia:
- quando corre a bola, corre um menino atrás.
não batem pernas mais nos campos
-
janelas mortas
a luz no topo dos prédios vira constelação
não sabem do natal
nem bambeiam no carnaval
desfilam na apoteose da avenida, da marginal
bailando em rodopios
em mio aos carros à mil
sem fantasia, sem fantasiar
a cidade mais triste
é meninos
mas não os percebe
perde-se tudo nas cidades, como também perde-se os meninos.
como meninos, perdem-se em si
nos terrenos baldios
e nas falácias
mais triste os meninos sem a cidade
por fugir do choro de sede
e da morte por nada
é cidade sem os meninos
que desaparecem num piscar do dia
nas falas do sr.
nos recantos de uma dor
e nas palavras de todo amor
não há mais paz nas ruas sem eles
nem há freada quando a bola pula na frente do carro.
meu Pai sempre dizia:
- quando corre a bola, corre um menino atrás.
não batem pernas mais nos campos
-
janelas mortas
a luz no topo dos prédios vira constelação
não sabem do natal
nem bambeiam no carnaval
desfilam na apoteose da avenida, da marginal
bailando em rodopios
em mio aos carros à mil
sem fantasia, sem fantasiar
a cidade mais triste
é meninos
mas não os percebe
perde-se tudo nas cidades, como também perde-se os meninos.
como meninos, perdem-se em si
nos terrenos baldios
e nas falácias
mais triste os meninos sem a cidade
por fugir do choro de sede
e da morte por nada
é cidade sem os meninos
que desaparecem num piscar do dia
nas falas do sr.
nos recantos de uma dor
e nas palavras de todo amor
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
maria carolina
ela berrou, cantou
esperneou e riu alto
dançava, e assim, fugia de si
se armava para com os meninos
contou uma piada no silencio que consumia o final do assunto
sorria, contagiando as flores
mas no silencia de sua escuridão
ela desejava morrer
virando de lado sentia
um buraco a se abrir.
a solidão deitou-se.
se espera que viva a sorrir
mas não se entende que possa viver em si
e sentir a ausência de tudo, assim.
esperneou e riu alto
dançava, e assim, fugia de si
se armava para com os meninos
contou uma piada no silencio que consumia o final do assunto
sorria, contagiando as flores
mas no silencia de sua escuridão
ela desejava morrer
virando de lado sentia
um buraco a se abrir.
a solidão deitou-se.
se espera que viva a sorrir
mas não se entende que possa viver em si
e sentir a ausência de tudo, assim.
domingo, 28 de setembro de 2014
o barco
percebi que me desloco nos dias
com um empurrão que leva até a sexta
e torna os finais de semanas o único momento
em que a realidade não parece ser tão afiada assim
a nuvem da noite invade o meu quarto. em cada estreito buraco dissemina seu dissabor. em cada parte contamina um desprazer. uma tortura para cada movimento deitado na cama.
meu barco torna a chacoalhar, e os remos que me guiavam, caem por baixo da cama.
nesse meio de sórdida vida perdida,
afundo.
em infinita descida, a cada segundo, questiono o fim de tudo aquilo. e como me dói não ver razão no fim. como me saca as pernas não poder ir contra. como apaga meu coração essa descida que afoga todos os sonhos. e como é tão tardio essa nuvem que derruba meu barco.
passou.
e voltará semana que vem. ainda não sei quando
não encontro janelas que impeçam essa nuvem em entrar.
sábado, 27 de setembro de 2014
pesar
linhas que pareciam tão tortas no passado, e hoje já se enlaçam no final.
talvez se lembrará da tristeza dos artistas, e das palavras, engolidas, tão duras que pesam no vazio do frio da barriga.
não desfilaremos mais sob a luz matuta dos postes. não olharemos mais a chuva como dois bêbados.
o sol agora é seu coração, intenso e vivaz. a lua continuará se parecendo com seu olhar.
-
árvores centenárias nos conheceram, ainda tenho o cartão de visita.
pregados ainda estamos na nossa cama
amontoados sob nossos pés, ainda estão nossos sonhos
o travesseiro ainda é nosso cúmplice
dos dias lastimados
pela presença
da falta
de você.
talvez se lembrará da tristeza dos artistas, e das palavras, engolidas, tão duras que pesam no vazio do frio da barriga.
não desfilaremos mais sob a luz matuta dos postes. não olharemos mais a chuva como dois bêbados.
o sol agora é seu coração, intenso e vivaz. a lua continuará se parecendo com seu olhar.
-
árvores centenárias nos conheceram, ainda tenho o cartão de visita.
pregados ainda estamos na nossa cama
amontoados sob nossos pés, ainda estão nossos sonhos
o travesseiro ainda é nosso cúmplice
dos dias lastimados
pela presença
da falta
de você.
domingo, 31 de agosto de 2014
Os poetas atrás do riacho
Não sei da
deles
Só sei do
que vem
De suas
criações
Das
entonações
Não cabem na
livraria
Na rua
ninguém ouviria
Suas emoções
As anedotas
de suas vidas
Talvez seja
a sabedoria
Que cria
parcerias
Com o mar
O amar O vento
O penso
O Tento
De nós
Não esperam
a solidão
Pois criam a
paixão
Nem tentam
mal dizer
Se esperam
pra chover, para chamar a criação
Os poetas
cheiram a verdade
E não
reduzem a linguagem
Se dão o
licencio
Contra o
silencio.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
face a face
Não gosto de ler somente o seu “visualizado às”
A secura dessas letras na tela pareciam mais com nuvens se
não fosse essa tela.
Te aproximam mas mesmo assim estamos distantes
Não é da falta de assunto que eu não gosto
É da falta de tudo
Eu não gosto é de pensar
De pensar extravagancias e exageros em segundos que parecem
erupções
Nem de contar os dias
Que parecem que já estão contados
Queria saltar diante tudo
Diante meus pensamentos
E diante teu esquecimento
Diante a qualquer tela de computador
Qualquer distância
E qualquer rede que não aproxima, e muito menos balança.
sábado, 9 de agosto de 2014
Poema N° 2
Se toda dor
É uma flor
A saudade é
Seu espinho
Enquanto cabe ao caule
Ser a forma da esperança
Esperando um vaso de carinho
Cada pétala chora,
E a memória implora
Para a mágoa ligeira
Que vem das correntezas da seca
Deste triste sertão
Que é o seu coração
Cabe a alguém
Pois crescer só, não convém
Tirar meus insetos
Me trazer para este teto
Pois agora meu murcho jazias
Desde que você brotou
No amanhecer dos meus dias.
terça-feira, 29 de julho de 2014
A Carolina
Aperta o
botão, ascende à luz. Carolina vê imediatamente sua imagem no espelho. Naquele
momento não pensa nada. Somente olha para seu busto nu refletido. Dentro de si,
pensa nas noites que perdeu (ou ganhou) e no que fazer de sua vida. Todo dia
ela pensa: O que eu estou fazendo da minha vida? O que eu fiz de diferente? O
que eu não fiz? Todo mundo pensa nisso, porém ninguém sabe o que fazer! O que
eu devo fazer então? E isso deixa
Carolina ainda mais melancólica frente sua imagem. A madrugada começa a invadir
o banheiro, e ela, a passar batom em seus lábios. Sabe do seu fascino, da
delicadeza de sua pele, e do seu olhar corrosivo. Os olhos verdes saltam
conforme contorna de preto suas pálpebras. Procura fazer pouco barulho, fazendo
todos os movimentos em um perfeito misto de suavidade e seriedade.
-Todo esse
tempo, talvez, eu não estive aqui. Somente uma cópia de mim.
Ao longo
dos seus 17 anos, sempre se sentia como um arrastado final de semana, Carolina
sempre teve medo. Somente medo. Medo de todas as circunstancias, medo das imagens,
medo das falas, medo dos seus pensamentos e também dos outros. Só vestia medo,
hoje, porém, trocou de roupa. Carregava
em seu olhar, um fundo de paisagem, compenetrada em silêncio, respeitando seu exílio,
seu próprio abandono. Apesar de si mesmo, cultivava no amanhã, dias melhores.
Idealizava seu futuro ao lado de Ricardo, seu namorado de 21 anos. Para ela,
Ricardo era a realização da perfeição. Aquele que não a julgava, respeitava. E
que fazia o que ninguém ainda aprendeu: amar. Ele queria viajar com ela, o
quanto antes, em direção à Machu Pichu. Ela não tinha certeza. Certeza de nada.
Saiu às 4h
da madrugada. Colocara seu vestindo justo em vinil preto em conjunto com os
saltos. Batom vermelho em destaque. O frio não aborrecia suas longas pernas
desnudas. Uma menina que se transformara
em mulher em 30 minutos. Na bolsinha, documentos, balas, alguns trocados. Na
cabeça, dúvidas. A avistei na esquina da Rio Branco com a Braguinha. Colocava
meio corpo dentro da janela de um carro, somente pernas pra fora com os joelhos
quase se dobrando.
6h da manhã
e seus pais olham incrédulos a desorganização do quarto. Leem um bilhete, mais
uma vez. Ela, a mãe, chora. Ele, o pai, olha para o chão.
- O que nós
fizemos de errado? O que eu não compramos a ela?
- Se acalme,
toda manhã ela volta pra casa...
Porém,
dessa vez, Carolina não voltou.
As Três Marias e a Aparecida da Terra
A mulher que eu vejo é a dos cabelos presos, das pestanas consumidas e dos sonhos de pura teoria.
Essa mulher é o lugar comum das donas de casa e das intelectuais
Não da para descrever a mulher que eu vejo
O busto, pesado. As mãos, áridas. No rosto, um olhar acolhedor, mas que desafia o mal, junto aos lábios que já desejaram tudo nessa vida.
Mas que mulher é essa que eu vejo?
As sombras das suas olheiras poderiam ser entendidas como símbolo da destreza. Talvez até a voz lírica vire canto dos pássaros.
Essa mulher é como uma dúvida, sendo tão desafiadora, indesvendável no início, que ao final, na total compreensão, torna tudo fluído, abrindo passagem a todas as nossas razões da vida.
E essa "Maria" a terra, resplandece tão intenso e vivo, que é maior do que todas as Marias no céu.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Criolo uma vez disse que "trabalhador brasileiro é tratado que nem lixo". Eu acho que é pior.
É tão normal
Que ninguém percebe
O quanto a desigualdade é visceral
Multidão monocromática, se protegendo do frio
Se aquecendo somente com o arrepio
Você não sabe quanta coisa se entende
Vendo nessa gente, a marca doente
Que forma no olhar, transformando dor
Em suor, do pobre trabalhador
Mais uma fila, dessa vez do ônibus
Transformando a força decadente do operário
Do Estado-protozoário
Em presa fácil dos urubus
Aqui perto tem uma praça
De vez em sempre dormem uns mendigos
Vexados, "grandes perigos"
Banhados a imagem de grande murraça
E nos seios pátria mãe tão gentil
Esses, dormem!
Embaixo da bandeira da nação
Que não protege seu provável filho
De não fugir do trocadilho
E da triste dor da negação
No outro lado tem um shopping
Também de prováveis filhos seus
Mortos trabalhando nesse imenso coliseu
Chego ao hospital, tive febre
Eram 14:40, agora já são 16:44
Em meio ao desanimo, você escuta Histórias.
Mas é simples: Todos estão cansados.
Vou para casa então, vou caminhando
Lá, leio comentários das notícias: quanta asneirada!
Porém, me conforto nas atividades da companheirada
E já sinto em meu coração: a revolução está chegando.
Que ninguém percebe
O quanto a desigualdade é visceral
Multidão monocromática, se protegendo do frio
Se aquecendo somente com o arrepio
Você não sabe quanta coisa se entende
Vendo nessa gente, a marca doente
Que forma no olhar, transformando dor
Em suor, do pobre trabalhador
Mais uma fila, dessa vez do ônibus
Transformando a força decadente do operário
Do Estado-protozoário
Em presa fácil dos urubus
Aqui perto tem uma praça
De vez em sempre dormem uns mendigos
Vexados, "grandes perigos"
Banhados a imagem de grande murraça
E nos seios pátria mãe tão gentil
Esses, dormem!
Embaixo da bandeira da nação
Que não protege seu provável filho
De não fugir do trocadilho
E da triste dor da negação
No outro lado tem um shopping
Também de prováveis filhos seus
Mortos trabalhando nesse imenso coliseu
Chego ao hospital, tive febre
Eram 14:40, agora já são 16:44
Em meio ao desanimo, você escuta Histórias.
Mas é simples: Todos estão cansados.
Vou para casa então, vou caminhando
Lá, leio comentários das notícias: quanta asneirada!
Porém, me conforto nas atividades da companheirada
E já sinto em meu coração: a revolução está chegando.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Conjunto de tercetos e dísticos nascidos no hospital
Feitos em meio a tédio e sem pretensão alguma com realmente nada
O barulho da ambulância invade o local
Dentro, as pessoas aguardam tratamento
Ou a achegada do último momento.
A sala de espera, de um zunido estressante
Representa o silencio pungente
De quem não para de reclamar um instante.
A luz reflete nos olhos cansados da senhora, que parece uma máquina de dar corda, que quase parando, esvaecendo das saudades de outrora.
Se a espera é grande, e a paciência não é monge
O espaço é pequeno, e a fila vai longe.
Os enfermeiros começam a chamar
Maria, Paulo, José e nada do pobre nome
Angústia consome, mas não é pior que a fome.
Seu nome na lista é mais difícil que convocação
Ou ganhar no show do milhão.
Quando entrei reparei em uma moça bonita
Mas que se vestia feito uma eremita.
Com o médico, três palavras foi o necessário
Para o "eficiente" doutor, escrever todo o receituário.
Encaminhado para tomar duas injeções
Resultado: indo embora não conseguia andar
E em casa não conseguia sentar.
A saúde já se tornou uma loteria
Ou para que está disposto a pagar essa mercadoria.
O barulho da ambulância invade o local
Dentro, as pessoas aguardam tratamento
Ou a achegada do último momento.
A sala de espera, de um zunido estressante
Representa o silencio pungente
De quem não para de reclamar um instante.
A luz reflete nos olhos cansados da senhora, que parece uma máquina de dar corda, que quase parando, esvaecendo das saudades de outrora.
Se a espera é grande, e a paciência não é monge
O espaço é pequeno, e a fila vai longe.
Os enfermeiros começam a chamar
Maria, Paulo, José e nada do pobre nome
Angústia consome, mas não é pior que a fome.
Seu nome na lista é mais difícil que convocação
Ou ganhar no show do milhão.
Quando entrei reparei em uma moça bonita
Mas que se vestia feito uma eremita.
Com o médico, três palavras foi o necessário
Para o "eficiente" doutor, escrever todo o receituário.
Encaminhado para tomar duas injeções
Resultado: indo embora não conseguia andar
E em casa não conseguia sentar.
A saúde já se tornou uma loteria
Ou para que está disposto a pagar essa mercadoria.
domingo, 6 de julho de 2014
No frio das noites
Noite densa, com vento frio,
incomodando as orelhas. Embaixo da marquise, no centro, tentando se
esconder no vão, na sombra. Logo a frente vem um pequeno grupo de
meninos. O que fazem na rua a essa hora da madrugada? Quando se
aproximam, a tal senhora - tratada assim por respeito, pois não
sabemos a idade ao certo, mas talvez uns 45 – novamente se esconde
na sombra do vão da marquise. Eles passam fazendo muito barulho para
acordar os moradores, mas mal sabem que quem mora no centro é
mercadoria.
Quando eles passam, ela procura sair
rápido da sombra e é anunciada pela luz do poste: cabelos pretos,
roupas suadas e gastas escuras. Pés descalços. Ela se movimenta
rente a parede das lojas de uma maneira rápida, mas com a pisada
final sempre muito suave. Tem medo. De tudo e todos, mas
principalmente de derrubar o que carrega consigo: um bebê.
Mas porque um bebê em tais mãos a uma
hora dessa? E o frio? Incrível como não existe hora importuna para
bebês chorarem. Dessa vez ele está tranquilo, não quer nada disso.
Ela chega na esquina e olha para os
dois lados. Não está esperando nenhum carro passar, e sim o
arrependimento chegar. Atravessa, sempre em linha reta. Decisiva,
amargurada, convicta. Nesse instante um rajada de vento vem trazendo
frio, e junto poeira, que naturalmente vão em direção sempre ao
olho. Ela se fecha procurando proteger o bebê, e o olha nos olhos
dele como se fosse a primeira vez.
De volta a corrida, ela se depara na
única luz integralmente acessa da rua. É uma porta, que se abre
dando com uma única escada. Sendo assim um sobrado. Ela olha para
todas as direções possíveis e abre a porta. Se agacha um pouco
para ver o topo da escada, que tem uma curva, dando em outra e outra
escada. Tem ninguém.
Maldita a hora da dor dos homens,
maldito o remorso criado pelos deuses, pois ao se agachar, deixou a
pesada manta no chão e apertou a campainha com a raiva de uma vida
inteira.
Deixou o bebê. Chorou. Correu e sumiu
na rajada fria.
Um deses atos de renuncia que
significam amor absoluto.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Psico-Online
Branco.
Muito Branco.
Havia
um pouco do chão também, mas Eleonor não tinha muita certeza. Quando ela
começou a andar, não sentia esse chão. Não caminhava, quase se tele-transportava.
Um segundo atrás estava se recordando daquela noite no Clube de Dança, agora
começara a lembrar alguns momentos do seu dia. Quando se encontrou no espelho,
lembrou-se de Alice, e após isso alguns galhos começaram a surgir e plantas
também. O Gato de Cheshire apareceu e ela se lembrou do Sr. Pulgas. O inocente
gato surgiu segurando um machado e ao seu fundo um exército se movimentava,
passando entre Eleonor.
Novamente
o silêncio, e aí um trem! Outro carro, um avião. De repente estava dirigindo
novamente e escutando a milhões de buzinas no transito da Marginal. Esperou e
olhou o rádio. Quando apertou play já se deitava ao lado de
seu namorado com The Carpenters ao fundo. A mesma cena antes de adormecer.
Olhou de uma forma estranha o entorno. Não sentia a presença física do seu
namorado e nem das coisas no quarto. O espaço só existia conforme olhava reto.
Atrás ou nos lados talvez somente alguma luz indicando algo, mas nada existia,
pois nada é real. Real? Eleonor abriu a porta e caiu.
Caiu,
rodopiou e deslizou no ar. Em seguida estava em um bloco de carnaval, encostada
atrás de um banheiro químico. Sentiu que já esteve ali. Olhou ao redor, mesma
sensação do quarto. Ao virar, esbarrou em seu futuro namorado. Os dois pediram
desculpas e a multidão o arrastou. Quando disse “hey”, já estava abrindo a
porta para seus amigos. Era 07 de Junho, aniversário de sua mãe. Os convidados entravam, a cumprimentavam e perguntavam: Onde coloco o presente? Eleonor indicou com a
cabeça quando subitamente já estava olhando a lápide de seu filho. 2 segundos e
seu coração congelou e seus olhos lacrimejaram. Novamente na festa da mãe,
indicando o local dos presentes, escutou gritos. Saiu apressada da porta e
encontrou todos em volta da piscina aterrorizados. Seu filho se afogara.
Eleonor
acordou subitamente. Muito confusa e ofegante. Desceu as escadas e foi beber um
copo com água. Derrubou um pouco na pia e quando o líquido passou pelo ralo, ouvisse um som de um pingo em um mar. Eleonor olhou o ralo e estouro! Sua casa estava inundada em segundos.
Quando conseguiu abrir a porta, a água saiu e em
sua casa só tinha grama. As próprias paredes e escadas sumiram. Por pouco não
fora atingida por um bumerangue. Olhou em volta e estava no parque. Seu filho
surgiu dizendo que estava com fome. Milhares de dúvidas surgiram na cabeça de
Eleonor. Observou uma família embaixo de uma árvore fazendo um piquenique.
Percebeu que era ela a criança de roxo, com apenas 7 anos. Quando foi
atravessar, para se aproximar, um caminhão em alta velocidade buzinou e Eleonor
só teve tempo de olhar a lataria vermelha e o forte farol se aproximando.
Ao acordar, novamente assustada, o quarto tinha a decoração de sua infância, com
bonecas jogadas pelo chão. Estava em seu antigo endereço, 10 anos atrás. Quando acordou viu seu acidente na TV.
Novamente
se levantou abruptamente. Procurava no redor do quarto escuro algo. Não sabia o
que. Remexeu nos fios de cabelo e pensou em beber água. Ou talvez não. Eleonor percebeu que tudo fora um sonho, talvez um
sonho dentro de um sonho. Consternada, tentou acordar seu marido. Quando tocou
o braço, sentiu que estava duro e frio. Removeu
violentamente o cobertor e encontrou um boneco de testes ao seu lado. De
repente uma luz muito.forte refletiu em sua pele, tão forte que Eleonor não enxergava nada a sua frente. Uma porta se abriu e um moço
saltou atirando dardos de sono. Bravejou depois no telefone: peguei um dos
grandes!
Eleonor
sentiu um tipo de queimação, que foi descendo pelo seu corpo até suas partes
intimas. Ali se concentrou, elevando o prazer de Eleonor. Enquanto se contorcia, imagens do rosto de seu marido piscavam em sua mente. Seu tio a tocando no parque quando tinha 7 anos, duramente ressurgiram. Ao mesmo tempo
em que sentia prazer, Eleonor tentava fugir dele. No momento do orgasmo, enfim
abriu os olhos e nem notou que estava em uma cama descendo pelos céus a uma
velocidade astronômica. O movimento das nuvens ainda era em câmera lenta, e os
sons da natureza pareciam tão próximos.
Chegou
ao chão levantando poeira. Olhou diretamente ao Sol, como se pudesse encara-lo.
Por um instante pensou que poderia seduzi-lo. As forças dos raios foram
aumentando exponencialmente até o momento que cobriram totalmente a visão de
Eleonor. Tudo ao seu redor pegava fogo, menos seu corpo e sua cama. Enquanto
ainda olhava em direção ao Sol, começou a sentir que se desprendia de seu corpo,
como se realmente sua alma estive deixando seu físico. Começou a correr por
entre o fogo, tentando alcançar uma porta, enquanto sentia que sua alma a
deixava. Abriu a porta e acordou.
Eleonor estava sentada em sua velha poltrona.
Velha sensação estranha. Antes de adormecer estava lendo um livro. O fitou e
leu a primeira frase do topo da página: “Dentro de cada um de nós há um outro que
não conhecemos. Ele fala conosco através dos sonhos". Confusa, com um ar
de vertigem, pensou: será que a realidade também não seria uma fantasia ou
ilusão? Olhou a TV que estava muda, era alguma notícia sobre alguém que foi
atropelada por um caminhão. Logo sentiu um toque em seu peito. Dessa vez,
Eleonor concluiu que tudo estava bem. Resolveu ver a beleza daquele dia. Olhou
pela janela: o mundo estava pegando fogo. Novamente voltou a dormir. Novamente
acordou.
sábado, 22 de março de 2014
Tem umas vezes
Que eu me deito e deixo a escuridão do quarto me devorar
E rasgo esse fundo com a luz da tela do celular
Sou eu procurando alguma coisa
Fico revirando conversas antigas
Esperando alguma companhia pra acabar com essa ansiedade
Mas apenas consumo distração
Penso em te escrever
E escrevo só olhando para a tela
Tudo que não tenho coragem de digitar
Fico olhando sua foto do perfil sorridente e perguntando se você realmente está feliz
O tempo sai voando pela janela e contorna meu quintal, e nem tento correr atrás
Procrastinar é olhar o chá na caneca
Procrastinar é rabiscar a folha
Procrastinar é ficar subindo e descendo a tela da conversa
Procrastinar é achar que que um dia alguém vai ler isso aqui
Procrastinar é tentar viver todo ocupado
Procrastinar é tentar pensar em você
Em nós.
Que eu me deito e deixo a escuridão do quarto me devorar
E rasgo esse fundo com a luz da tela do celular
Sou eu procurando alguma coisa
Fico revirando conversas antigas
Esperando alguma companhia pra acabar com essa ansiedade
Mas apenas consumo distração
Penso em te escrever
E escrevo só olhando para a tela
Tudo que não tenho coragem de digitar
Fico olhando sua foto do perfil sorridente e perguntando se você realmente está feliz
O tempo sai voando pela janela e contorna meu quintal, e nem tento correr atrás
Procrastinar é olhar o chá na caneca
Procrastinar é rabiscar a folha
Procrastinar é ficar subindo e descendo a tela da conversa
Procrastinar é achar que que um dia alguém vai ler isso aqui
Procrastinar é tentar viver todo ocupado
Procrastinar é tentar pensar em você
Em nós.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Compensação da solidão
É na solidão do Sol que me encontro
E nas noites fico a namorar a Lua
E talvez amante da chuva
Na tentativa de compreender a beleza das flores
Olho por muito tempo, de perto, uma flor ao vento
Até perder de vista o que não é mais pétala
E assim murchar feito vida
E perceber a fragilidade do tempo
Para mim, este quê de natural conforta
Tem algo de complacência, carinho e amabilidade
Mas nenhuma palavra difícil importa
Se tenho a certeza de pura felicidade
Do Jardim da casa, uma janela para o mundo
Sinto que posso tocar o céu
E dançar com pássaros ao fundo
Ou simplesmente roubar as estrelas
Feitas do mais puro mel
Que cobrem meus olhos feito véu
E nas noites fico a namorar a Lua
E talvez amante da chuva
Na tentativa de compreender a beleza das flores
Olho por muito tempo, de perto, uma flor ao vento
Até perder de vista o que não é mais pétala
E assim murchar feito vida
E perceber a fragilidade do tempo
Para mim, este quê de natural conforta
Tem algo de complacência, carinho e amabilidade
Mas nenhuma palavra difícil importa
Se tenho a certeza de pura felicidade
Do Jardim da casa, uma janela para o mundo
Sinto que posso tocar o céu
E dançar com pássaros ao fundo
Ou simplesmente roubar as estrelas
Feitas do mais puro mel
Que cobrem meus olhos feito véu
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Tentativa
Escrevi teus olhos
Na tentativa de escrever a tua poesia
Achando ser fácil encontrar
Aquelas palavras certas
Aqueles sentimentos
Se fechar no teu abraço
Me esconder nos seus lábios
Se chorara na sua sombra
Sem rima, nem métrica
Mas tá errado eu perder a minha leitura, me perdendo em você
Tá errado eu colocar alguma música ao fundo mas ascender em minha mente
a sua voz
Tá errado se eu me perco no trajeto, porque queria te encontrar
Tá errado eu perder a palavra do poema, só por não saber o que te dizer
E tá errado eu não saber o que te dizer, se não quero te perder
Na tentativa de escrever a tua poesia
Achando ser fácil encontrar
Aquelas palavras certas
Aqueles sentimentos
Se fechar no teu abraço
Me esconder nos seus lábios
Se chorara na sua sombra
Sem rima, nem métrica
Mas tá errado eu perder a minha leitura, me perdendo em você
Tá errado eu colocar alguma música ao fundo mas ascender em minha mente
a sua voz
Tá errado se eu me perco no trajeto, porque queria te encontrar
Tá errado eu perder a palavra do poema, só por não saber o que te dizer
E tá errado eu não saber o que te dizer, se não quero te perder
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