terça-feira, 25 de novembro de 2014

na minha mente correm dois rios

na minha mente correm dois rios.


um que floresceu recentemente
e corre impunemente.


e outro - persistente no tempo - que ainda se preserva em meio ao entupimento de seu fluxo.


Ao meu barco, ronda uma névoa de indecisão.

pela dúvida de qual rio suicida tomar.

domingo, 23 de novembro de 2014


um grande marginal roubou a minha poesia!

um homem de bem roubou o grande marginal!

papeis roubaram o homem de bem!

e eu? eu sou só mais um, eu sou ninguém.
eu sou raso
nada largo
modestamente oco.

você? tuas mãos estão pincelando os homens
o teu coração come mundos!
teus olhos fizeram os prédios acordarem!
***



quero este marginal imediamente preso!

que a lei caia sobre ele e afunde seu âmago
chega dessa beleza que está florescendo em seu peito, chega!
***



a lei não suporta os homens.
ele não atinge a todos
não tocou o marginal

a lei, não está em todas os meios
e nem fins
não a lei para o que esse marginal faz

seu próximo delito será sabe-se deus lá quando!
anda por aí roubando mentes confusas
e corações vazios



um grande marginal roubou a minha poesia.



domingo, 16 de novembro de 2014

Pornopopéia

quero quebrar tuas paredes
engolir a tua respiração
matar minha sede no teu suor
ouvir todos os tons que você tem
e te ver posta a navegar, na imensidão de um mar de leite.

dentro das saias afiadas
no olhares tempestuosos das mal-ditas mulheres
existe sua chama estrondosa.

das mil faces
das mil mortes


seus grandes e pequenos lábios 👄
que nos beija
que nos fala,
destilam os segredos mais sobreis de todos nós
dos quais me enlambuzo de beber

mas na manha seguinte, uma criança torna a acordar
e no meio da cama, uma fossa se abre
enquanto o magnetismo dos olhares antes turvos,
se desmancha.

nas vitrines, nas mesas, nas mãos, nas bolsas,
existem vários sonhos.

dos meus, somente a janela vê.

para eles, uma razão infinita.
mas com prazo de validade
e mentiras, lavadas com verdade
para servirem com o que desejam.


assim também como meus sonhos


que duram apenas uma noite.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Meu amigo

Meu amigo, eu vou te falar
Como eu não sei te amar!
Tua grandeza envergonha até o mais ridículo tirano
e tua humildade quebra a magia até do mais pobre pastor

Mesmo no porte que os deuses não esperavam nada
Tu soube se portar!
No traquejo das mais encardidas sensações de todos nós, infelizes -
 - Um Lucas, do nome que significa luminoso -
soube como torna-las luz, exibindo nossa melancolia
nossa razão
nossa cabeça dura
e acima de tudo, nossa platonice tão sentida

Apóstolo Paulo tinha Lucas como discípulo,
e com ele andava a pregar.
Nós como grandes céticos, até de nós mesmos,
seguimos a nadar em nossa poesia.
Pingando lágrimas em palavras
e ondas em versos.

Meu amigo, você conseguiu congelar memórias em estrofes
e assim esculpe cada letra com verdadeiro apreço.

Agora entendi o porquê da homenagem - quase premoníaca - de sua mãe:

- São Lucas é padroeiro dos artistas.

Terças de cinema sem enxergar direito a tela
Soltando pipa ou indo ver os porcos no sítio
Exagerando a dose
Confiando cada palavra de angústia
Tecendo no horizonte
Alguma fé
Na chuva
Na ternura
Na luta.

Meu amigo, eu vou te falar
Como eu não sei te amar!

Para o fiel camarada Lucas Faustino  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Isabel nunca viu o mar


Isabel nunca viu o mar. Nunca se libertou nas águas salgadas, nunca pisou na areia quente. Entretanto, Isabel morava em uma cidade litorânea. Em meio a isso, como pode ela nunca ter ido de encontro ao mar? Isabel também não sabia, talvez dependesse dela, ou talvez não, quem sabe? Ninguém sabe.
Isabel trabalhava. O dia inteiro ela estava em total concentração, nos movimentos ímpares para não errar. Dentro do hostil galpão, ela beirava a fraca luz que entrava pela janeleta e se imaginava em delírios no mar. Na contemplação dos dias, no milésimo de folga, ela ouvia dos grandes quem era o mar. Vultoso, sedutor, eloquente – este era o mar de Isabel.
O caminho para o mar era aberto para os grandes. Belas avenidas os vomitavam direto lá. A areia se transformava em seus quintais e tudo era permitido. Um dia, um dos de Isabel encontrou esse caminho. Por indicação baixa de alguém, encontrou a oportunidade e a seguiu.
Já Isabel, pobre de si, nem sonhava com isso. Não existiram oportunidades. O mar era distante, mas ela sabia que existia! Um outro dia, um dos de Isabel discutiu com um grande. O pobre condenado conseguiu o que queria com muito esmo: ver o mar também. Entendia isso como seu direito. E lá se foi ele de sunga vermelha e boia no braço dançar no mar.
Isabel não foi, não sabia disso. Desenhava em seus sonhos uma miragem do que seria o mar. Alguns dos seus o encontravam, e nunca voltaram. Mudaram de roupas, costumes e gostos depois de descobrirem o mar. Isabel não, sempre continuou a mesma, dona de si, possuidora de nada.
Isabel nos seus últimos dias, se controlava para não chorar. Nunca descobrira o mar, nunca. Se virando de lado, se apertando contra o frio ela não parou de imaginar. A imagem do mar que a acompanhou durante a vida foi se apagando, apagando até o último fio de azul. Isabel fechou os olhos. Ela nunca viveu o seu mar.

sábado, 1 de novembro de 2014

da primeira vez que te vi, sabia que iria te perder.
é como a melancolia de deitar na cama e remoer
remoer todos os significados
as palavras não ditas
as chances de se mostrar por dentro
uma esfinge que não se vê.

por que é tão difícil escrever sobre você? mas tão fácil te colocar aqui
numa cama vazia
num sonho cheio
nos gestos e rostos de todo mundo

talvez eu não saiba sofrer.
talvez eu seja mais um pseudo-qualquer coisa
mas eu não sei ser você
não sei te carregar

os amores passados foram
os novos desejos queimaram
e você, onde está?

você está em lugar nenhum

eu perco a escrita
minha mão se atropela
e eu delírio de sono
porém persisto
tentando escrever você

ainda sim, a fraqueza incomoda tanto
não deixa a escrita continuar
ela grita que não posso fazer isso
que está ruim, que não sei mais o que
dizem que escrever poesia é ver o mundo com lentes bêbadas
- ninguém está pensando nisso quando atravessa a rua

pois senão, a tua poesia me prendeu na cama
nadei na pureza
vivo todos os l'amour de forma intensa, de explodir por dentro
não tenho mais onde rasgar palavras
é culpa minha se eu não sei o que quero

-Desculpa se te fiz chorar.
p/ Geovanna
deitado no lado da cama onde sempre fico enquanto converso com você