Isabel
nunca viu o mar. Nunca se libertou nas águas salgadas, nunca pisou
na areia quente. Entretanto, Isabel morava em uma cidade litorânea.
Em meio a isso, como pode ela nunca ter ido de encontro ao mar?
Isabel também não sabia, talvez dependesse dela, ou talvez não,
quem sabe? Ninguém sabe.
Isabel
trabalhava. O dia inteiro ela estava em total concentração, nos
movimentos ímpares para não errar. Dentro do hostil galpão, ela beirava a fraca luz que entrava pela janeleta e se imaginava em
delírios no mar. Na contemplação dos dias, no milésimo de folga,
ela ouvia dos grandes quem era o mar. Vultoso, sedutor, eloquente –
este era o mar de Isabel.
O
caminho para o mar era aberto para os grandes. Belas avenidas os
vomitavam direto lá. A areia se transformava em seus quintais e tudo
era permitido. Um dia, um dos de Isabel encontrou esse caminho. Por
indicação baixa de alguém, encontrou a oportunidade e a seguiu.
Já
Isabel, pobre de si, nem sonhava com isso. Não existiram
oportunidades. O mar era distante, mas ela sabia que existia! Um
outro dia, um dos de Isabel discutiu com um grande. O pobre condenado
conseguiu o que queria com muito esmo: ver o mar também. Entendia
isso como seu direito. E lá se foi ele de sunga vermelha e boia no
braço dançar no mar.
Isabel
não foi, não sabia disso. Desenhava em seus sonhos uma miragem do
que seria o mar. Alguns dos seus o encontravam, e nunca voltaram.
Mudaram de roupas, costumes e gostos depois de descobrirem o mar.
Isabel não, sempre continuou a mesma, dona de si, possuidora de
nada.
Isabel
nos seus últimos dias, se controlava para não chorar. Nunca
descobrira o mar, nunca. Se virando de lado, se apertando contra o
frio ela não parou de imaginar. A imagem do mar que a acompanhou
durante a vida foi se apagando, apagando até o último fio de azul.
Isabel fechou os olhos. Ela nunca viveu o seu mar.
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