sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Isabel nunca viu o mar


Isabel nunca viu o mar. Nunca se libertou nas águas salgadas, nunca pisou na areia quente. Entretanto, Isabel morava em uma cidade litorânea. Em meio a isso, como pode ela nunca ter ido de encontro ao mar? Isabel também não sabia, talvez dependesse dela, ou talvez não, quem sabe? Ninguém sabe.
Isabel trabalhava. O dia inteiro ela estava em total concentração, nos movimentos ímpares para não errar. Dentro do hostil galpão, ela beirava a fraca luz que entrava pela janeleta e se imaginava em delírios no mar. Na contemplação dos dias, no milésimo de folga, ela ouvia dos grandes quem era o mar. Vultoso, sedutor, eloquente – este era o mar de Isabel.
O caminho para o mar era aberto para os grandes. Belas avenidas os vomitavam direto lá. A areia se transformava em seus quintais e tudo era permitido. Um dia, um dos de Isabel encontrou esse caminho. Por indicação baixa de alguém, encontrou a oportunidade e a seguiu.
Já Isabel, pobre de si, nem sonhava com isso. Não existiram oportunidades. O mar era distante, mas ela sabia que existia! Um outro dia, um dos de Isabel discutiu com um grande. O pobre condenado conseguiu o que queria com muito esmo: ver o mar também. Entendia isso como seu direito. E lá se foi ele de sunga vermelha e boia no braço dançar no mar.
Isabel não foi, não sabia disso. Desenhava em seus sonhos uma miragem do que seria o mar. Alguns dos seus o encontravam, e nunca voltaram. Mudaram de roupas, costumes e gostos depois de descobrirem o mar. Isabel não, sempre continuou a mesma, dona de si, possuidora de nada.
Isabel nos seus últimos dias, se controlava para não chorar. Nunca descobrira o mar, nunca. Se virando de lado, se apertando contra o frio ela não parou de imaginar. A imagem do mar que a acompanhou durante a vida foi se apagando, apagando até o último fio de azul. Isabel fechou os olhos. Ela nunca viveu o seu mar.

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