Um dia eu estava no terminal de ônibus
Atrasando um pouco de propósito para não chegar no horário.
Nas raras vezes em que dá tempo de chegar cedo, eu prefiro manter as tradições
e não chegar no horário
Espiando as pessoas nas múltiplas filas de dar nó
Tão fadadas, esperando ir para casa e reencontrar a dignidade
Eu, enquanto encostado no poste, em sublime observação; uma senhora vem contra mim
Dou um risinho murcho, perspicaz ao olhar o botton com a bandeira americana invertida no peito dela
e penso:
- Velhinha subversiva hein!
E ela me encara, me contorna e vai mexer no lixo atrás de mim
Sinto como um golpe seu embaraço pelo meu olhar indiscreto, fazendo ela abaixar a cabeça para mim
escondendo o olhar
Viro meu rosto também como se esse ato somente afastasse nossa vergonha
Ela passa e sai, volto a olhar para ela
Na sutileza dos segundos praticamente pré-determinados da vida,
ela se vira e me encara
Engulo, me recortando por dentro
Um mísero espaço de tempo em que senti a violência para com os outros
de nossas ações
Eu poderia me sentir inocente, mas inocentes são aqueles que não sentem empatia.
-Naquele dia eu morri.
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