terça-feira, 29 de julho de 2014

A Carolina


Aperta o botão, ascende à luz. Carolina vê imediatamente sua imagem no espelho. Naquele momento não pensa nada. Somente olha para seu busto nu refletido. Dentro de si, pensa nas noites que perdeu (ou ganhou) e no que fazer de sua vida. Todo dia ela pensa: O que eu estou fazendo da minha vida? O que eu fiz de diferente? O que eu não fiz? Todo mundo pensa nisso, porém ninguém sabe o que fazer! O que eu devo fazer então?  E isso deixa Carolina ainda mais melancólica frente sua imagem. A madrugada começa a invadir o banheiro, e ela, a passar batom em seus lábios. Sabe do seu fascino, da delicadeza de sua pele, e do seu olhar corrosivo. Os olhos verdes saltam conforme contorna de preto suas pálpebras. Procura fazer pouco barulho, fazendo todos os movimentos em um perfeito misto de suavidade e seriedade.
-Todo esse tempo, talvez, eu não estive aqui. Somente uma cópia de mim.
Ao longo dos seus 17 anos, sempre se sentia como um arrastado final de semana, Carolina sempre teve medo. Somente medo. Medo de todas as circunstancias, medo das imagens, medo das falas, medo dos seus pensamentos e também dos outros. Só vestia medo, hoje, porém, trocou de roupa.  Carregava em seu olhar, um fundo de paisagem, compenetrada em silêncio, respeitando seu exílio, seu próprio abandono. Apesar de si mesmo, cultivava no amanhã, dias melhores. Idealizava seu futuro ao lado de Ricardo, seu namorado de 21 anos. Para ela, Ricardo era a realização da perfeição. Aquele que não a julgava, respeitava. E que fazia o que ninguém ainda aprendeu: amar. Ele queria viajar com ela, o quanto antes, em direção à Machu Pichu. Ela não tinha certeza. Certeza de nada.
Saiu às 4h da madrugada. Colocara seu vestindo justo em vinil preto em conjunto com os saltos. Batom vermelho em destaque. O frio não aborrecia suas longas pernas desnudas.  Uma menina que se transformara em mulher em 30 minutos. Na bolsinha, documentos, balas, alguns trocados. Na cabeça, dúvidas. A avistei na esquina da Rio Branco com a Braguinha. Colocava meio corpo dentro da janela de um carro, somente pernas pra fora com os joelhos quase se dobrando.
6h da manhã e seus pais olham incrédulos a desorganização do quarto. Leem um bilhete, mais uma vez. Ela, a mãe, chora. Ele, o pai, olha para o chão.
- O que nós fizemos de errado? O que eu não compramos a ela?
- Se acalme, toda manhã ela volta pra casa...
Porém, dessa vez, Carolina não voltou.

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