domingo, 6 de julho de 2014

No frio das noites


Noite densa, com vento frio, incomodando as orelhas. Embaixo da marquise, no centro, tentando se esconder no vão, na sombra. Logo a frente vem um pequeno grupo de meninos. O que fazem na rua a essa hora da madrugada? Quando se aproximam, a tal senhora - tratada assim por respeito, pois não sabemos a idade ao certo, mas talvez uns 45 – novamente se esconde na sombra do vão da marquise. Eles passam fazendo muito barulho para acordar os moradores, mas mal sabem que quem mora no centro é mercadoria.

Quando eles passam, ela procura sair rápido da sombra e é anunciada pela luz do poste: cabelos pretos, roupas suadas e gastas escuras. Pés descalços. Ela se movimenta rente a parede das lojas de uma maneira rápida, mas com a pisada final sempre muito suave. Tem medo. De tudo e todos, mas principalmente de derrubar o que carrega consigo: um bebê.

Mas porque um bebê em tais mãos a uma hora dessa? E o frio? Incrível como não existe hora importuna para bebês chorarem. Dessa vez ele está tranquilo, não quer nada disso.

Ela chega na esquina e olha para os dois lados. Não está esperando nenhum carro passar, e sim o arrependimento chegar. Atravessa, sempre em linha reta. Decisiva, amargurada, convicta. Nesse instante um rajada de vento vem trazendo frio, e junto poeira, que naturalmente vão em direção sempre ao olho. Ela se fecha procurando proteger o bebê, e o olha nos olhos dele como se fosse a primeira vez.

De volta a corrida, ela se depara na única luz integralmente acessa da rua. É uma porta, que se abre dando com uma única escada. Sendo assim um sobrado. Ela olha para todas as direções possíveis e abre a porta. Se agacha um pouco para ver o topo da escada, que tem uma curva, dando em outra e outra escada. Tem ninguém.

Maldita a hora da dor dos homens, maldito o remorso criado pelos deuses, pois ao se agachar, deixou a pesada manta no chão e apertou a campainha com a raiva de uma vida inteira.

Deixou o bebê. Chorou. Correu e sumiu na rajada fria.

Um deses atos de renuncia que significam amor absoluto.



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