Noite densa, com vento frio,
incomodando as orelhas. Embaixo da marquise, no centro, tentando se
esconder no vão, na sombra. Logo a frente vem um pequeno grupo de
meninos. O que fazem na rua a essa hora da madrugada? Quando se
aproximam, a tal senhora - tratada assim por respeito, pois não
sabemos a idade ao certo, mas talvez uns 45 – novamente se esconde
na sombra do vão da marquise. Eles passam fazendo muito barulho para
acordar os moradores, mas mal sabem que quem mora no centro é
mercadoria.
Quando eles passam, ela procura sair
rápido da sombra e é anunciada pela luz do poste: cabelos pretos,
roupas suadas e gastas escuras. Pés descalços. Ela se movimenta
rente a parede das lojas de uma maneira rápida, mas com a pisada
final sempre muito suave. Tem medo. De tudo e todos, mas
principalmente de derrubar o que carrega consigo: um bebê.
Mas porque um bebê em tais mãos a uma
hora dessa? E o frio? Incrível como não existe hora importuna para
bebês chorarem. Dessa vez ele está tranquilo, não quer nada disso.
Ela chega na esquina e olha para os
dois lados. Não está esperando nenhum carro passar, e sim o
arrependimento chegar. Atravessa, sempre em linha reta. Decisiva,
amargurada, convicta. Nesse instante um rajada de vento vem trazendo
frio, e junto poeira, que naturalmente vão em direção sempre ao
olho. Ela se fecha procurando proteger o bebê, e o olha nos olhos
dele como se fosse a primeira vez.
De volta a corrida, ela se depara na
única luz integralmente acessa da rua. É uma porta, que se abre
dando com uma única escada. Sendo assim um sobrado. Ela olha para
todas as direções possíveis e abre a porta. Se agacha um pouco
para ver o topo da escada, que tem uma curva, dando em outra e outra
escada. Tem ninguém.
Maldita a hora da dor dos homens,
maldito o remorso criado pelos deuses, pois ao se agachar, deixou a
pesada manta no chão e apertou a campainha com a raiva de uma vida
inteira.
Deixou o bebê. Chorou. Correu e sumiu
na rajada fria.
Um deses atos de renuncia que
significam amor absoluto.
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