lembro dos sábados cinzentos
lembro dos acidentes
lembro dos desenhos
lembro dos presidentes
lembro dos faróis demarcando seus lugares na avenida
da barriga de meu pai ser meu travesseiro
das bolas de futebol me driblando
do sol afunilado na nossa cabeça
lembro da saia de minha mãe ser uma grande cortina;
cortina de embaraço
onde é permitido se esconder em todas as situações
seja
de suas amigas solteironas; que tem memória curta quanto a tamanho de crianças
ou da canalhice dos meninos mais velhos.
não havia tristeza para mim pelo mundo ser tão grande.
***
"são tempos difíceis para os sonhadores", amélie uma vez me disse
mas acho que não, nós temos muito tempo
e é fácil, pois comemos utopia a toda hora
ou cheiramos carreteis de fé.
só tragando um belo coração é que se compreende que a vida vai demorar para se desenrolar, contemplando uma felicidade real-
e assim se espera que dure para sempre, sem queimar o dedo no final.
não são tempos difíceis, amélie
-difícil é eclipse solar misto ou encontrar um chester vivo!
difícil é acreditar em nada.
acredite em alguma coisa e verás como é linda e maluca a esperança!
não há ideia que não sobreviva no tempo
os homens morrem, os dias também.
mas uma ideia não.
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