quarta-feira, 13 de julho de 2016

A gente se acostuma a olhar a cama com estranheza, como se ela fosse uma depósito de roupa suja.
como se o sofá fosse nossa única mordomia.
a gente se acostuma a esperar ansiosamente o ônibus para poder dar uma cochilada
a gente se acostuma, mas não devia.

a gente se acostuma a acordar de olho inchado, tomar café azedo e andar em latas de sardinha móveis carinhosamente apelidadas de ônibus.
a gente se acostuma, mas não devia.

a gente se acostuma a tratar tudo como lixo; descartável.
varremos o chão
e colocamos tudo para debaixo do tapete:
nossos desejos, ambições, amores, trivialidades e desilusões. Pra que tanto medo de ser?

falamos baixinho para não incomodar
enquanto na verdade, queríamos gritar para todos ouvirem:
- ESTOU COM MEDO
- EU TE AMO
- ME AJUDE

sempre nos achamos os inconvenientes. Afinal, ninguém quer escutar um chorão que não agradece o que tem. Afinal, sempre tem alguém pior. Afinal, vai passar, não é?

a gente se acostuma mas não devia.

...
a gente se acostuma mas não devia
a andar com roupas de espinho
ou que apertam os seios;
evitando contato com os outros
deixando de abraçar.

a gente tem vergonha de beijar homem na bochecha
a gente se segura, muda voz, andar ereto, exagera, mente
para não chamarem de ~viado~, ~covarde~ e sei lá mais o que.

a gente se acostuma a viver para os outros, a se vestir para os outros, a comer e agir para os outros.
mas eu também sou um "outro" para alguém! 
então a gente vive para quem mesmo? ou a gente vive para que?

se é para encher a cara no final de semana e sentir aliviado da semana que passou, eu ñ quero fazer isso.
se é para chorar ao sair de casa para trabalhar, eu não quero sentir isso.
se é para fingir estar tudo bem, enquanto o coração se dilacera, eu não quero essa dor.
se é para sentir vergonha das roupas, cabelo, cor da pele, da casa, do bairro, do gênero ou orientação, 
eu não quero mais viver então.

fui à uma festa. me senti deslocado. 
sentado em minha mesa, minha cabeça era igual a um balão
eu quis me morder, rasgar, me estilhaçar
eu quis viver em sossego no canto da cama
no canto do quarto
no canto mais escondido da cidade.
só assim eu estaria livre

será?

...
já que peso do mundo e de minha insignificância no universo me pesa muito
e eu só tenho dois braços...
(intérprete cai)

a gente se acostuma, mas não devia
a não levantar quem cai na rua
seja por vergonha ou indiferença.

nem mesmo aqueles que já caíram há muito tempo e já são parte do chão.

mas faz sentido, ninguém olha mais pro chão mesmo.
afinal, varreram tudo para o tapete.
e deixa lá que tá tudo bem.

mas não tá bem nada! Porque debaixo do tapete tem gente pobre, bêbada.
tem gente negra morta
tem criança órfã viciada
tem ódio, tem interesse, tem ego
tem solidão, desinteresse, apatia e opressão!

a gente se acostuma, mas não devia.

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